domingo, 13 de fevereiro de 2011

Osvaldo Nunes - singelo tributo a um artista popularíssimo vitimado pela homofobia

Ontem ouvi o segundo programa apresentado na rádio Roquete Pinto por Sérgio Cabral (pai) em homenagem ao Bloco Carnavalesco Bafo da Onça

- Delícia, como dizem os mais novos. 

Pude recordar sambas de enorme popularidade, que atravessaram anos acompanhando gerações com alegria, irreverência e apelo sensual (de uma forma, digamos, menos explícita/rude que a atualmente vigente); conhecer parte da história (não tive a alegria de ouvir o primeiro programa) de um bloco que gozou de enorme popularidade - juntamente com o Cacique de Ramos e o Cordão da Bola Preta, naquele universo anterior às bandas; conhecer artistas e canções que não havia ainda tido acesso e, sobretudo, matar as saudades de um cantor e compositor popular, cuja forma de interpretar era peculiaríssima pelo "incremento" que inseria em paralelo à letra - como uma "assinatura" ao texto. Inesquecível tambem a sua alegria e irreverência.



Estou falando de Osvaldo Nunes.Um negro que não era bonito ou "bem apessoado", segundo o padrão hegemônico, mas dotado de um carisma invejável. Impossível ouvir suas interpretações e depois esquecê-lo. Eu, como tantas pessoas de minha geração e das anteriores, embora nunca tivesse sido apaixonada por samba e seu universo, tinha enorme simpatia por esse artista de estilo peculiar. 

Dentre tantas canções que se tornaram sucesso em sua interpretação, é possível destacar algumas, ciente de que o desejo seria trazê-las quase todas.

É preciso frisar que ele era o autor da maioria delas.

Oba, de 1962, acabou virando o hino do Bloco


"Nessa onda que eu vou / nessa onda ia ia / é o Bafo da Onça / que acabou de chegar / Olha a rapaziada / Oba / vem dizendo no pé / Oba / As cabrochas gingando / e como tem mulher / todo mundo presente / olha a empolgação / Esse é o Bafo da Onça /que eu trago guardado no meu coração / é o bom, é o bom, é o bom"

Segura este samba Ogunhê, de 1969
"Segura este samba, não deixa cair / O samba é duro e estou aí / Ogunhê, ogunhê / Oi, segura este samba, não deixa cair /  O samba é duro e estou aí / Ogunhê, ogunhê // ... // E diz no pé, sapateia crioulo / bamboleia as cadeiras, mulata / diz no pé, sapateia crioulo / bamboleia as cadeiras, mulata //..."

Deixa meu cabelo em paz
"Até lá na escola já não posso estudar /  Com meu cabelo grande o diretor não deixa entrar / Deixa meu cabelo em paz , seu diretor / deixa meu cabelo em paz / / O pai  da garota já não quer que eu namore mais / O motivo é o meu cabelo que está grande demais / Deixa meu cabelo... 2 x  / Não corto meu cabelo de jeito nenhum vou cortar / Sou jovem, avançado estou na onda o que é que há / ..."


Eu chorei
"Se eu chorei, o problema foi meu /  se fiquei triste / tive minhas razões / Não vou reclamar /


Na onda do berimbau.
"Na onda do berimbau / Esquim dim dim / Esquin dim dim / Agitarei o carnaval / Esquim dim dim / Esquim dim dim / bate com a mão / que eu bato com o pé / Este samba virou candomblé"

A marca de um modo de ser  leve, irreverente e, em certo sentido, ingênuo - embora tenham sido igualmente tempos terríveis, na medida em que tinham por trás o cenário do regime ditatorial, com seu autoritarismo e arrogância característicos, muita perseguição ideológica, tortura e morte não somente àqueles que buscavam resistir ao regime, lutando por um país melhor, mas a qualquer indivíduo que ousasse não dissimular suas opiniões críticas a respeito da situação do país, bem como a qualquer um que tivesse a desventura de vir a ser classificado pelos  fiscais voluntários do regime como alguem esquisito, diferente, perigoso.

Recordo o impacto que me produziu a notícia de seu bárbaro assassinato, perpetrado no interior de seu apartamento, na Lapa dos anos 1991, segundo sensacionalisticamente noticiado à época, por um michê. 

Recordo, igualmente, o modo preconceituoso de veiculação da notícia, como usual àquela época, sempre atribuindo à vítima a "culpa" pelo seu martírio - semelhantemente às condenações das mulheres estupradas e assassinadas pelos ex-maridos e namorados.  

Lembro que ainda há poucos anos atrás ouvi de um veterano apresentador de programa radiofônico, vinculado a emissora tradicional na cultura carioca e brasileira, referir-se ao seu assassinato ainda naquele mesmo registro da  noção da "retribuição merecida".

Sérgio Cabral, nesse segundo programa homenageando o Bafo da Onça irradiou diversas canções gravadas por Osvaldo Nunes, elogiando de passagem, suas características originais de interpretação.

Cabral conheceu o artista antes de seu reconhecimento e popularidade. Nas palavras de Sérgio, quando o conheceu, ele ainda era o "Vavá"; depois, foi se tornando cada vez mais Osvaldo. Não ficou muito claro o sentido atribuído à frase. Eu, pessoalmente, preferi imaginar quisesse se referir a um modo mais informal, não profissional. Mas confesso desconfiar que não estou bem certa.

- Nenhuma referência, contudo, fez Cabral a respeito de seu falecimento. Aliás, as referências às personalidades com práticas homossexuais em nosso país oscilam entre o completo silenciamento acerca de sua orientação sexual ou culpabilização da vítima.

Retratações positivas de suas trajetórias, focalizando sem pejo talento, criatividade, personalidade e "homossexualidade" apenas muito recentemente se vem construindo o hábito de fazê-las - como de resto são feitas as de pessoas com práticas heterossexuais.

Do que encontrei na internet sobre a sua biografia, há referência que teria nascido em fins da década de 1940, assim como uma outra, do sítio Memória da MPB, apontando seu nascimento no Rio de Janeiro, em 1930.

Órfão ou desconhecendo os pais, passou a infância por instituições asilares, de onde fugiu com aproximadamente treze anos, passando a viver nas ruas, onde foi "baleiro, engraxate e camelô, além de artista ambulante", segundo uns e envolvido na marginalidade, segundo outros.

O contato com a marginalidade, durante a maior parte de sua adolescência, lhe possibilitou a aproximação com o mundo do samba e dos blocos fazendo aflorar seu talento e originalidade.


Era parte de seu estilo integrar roupas, palavras e adereços da cultura das religiões afrobrasileiras, assim como a esfuziante alegria que exibia em suas interpretações.


O registro constante do Memória da MPB,  traz boas informações sobre sua trajetória e produção artística, mencionando, inclusive os prêmios que conquistou.

Teria gravado um total de apenas quatro discos long plays, o primeiro datado de 1962. Há tambem referências a um compacto, de 1961, cujos nomes das músicas ainda não consegui localizar.
• Ôba! (1962)
• Tá tudo aí! (1969), com The Pop's
• Você me chamou (1971)
• Ai, que vontade (1978)
• Aquele abraço – O melhor de Oswaldo Nunes (coletânea)

 

Também do mesmo sítio é a informação de que

"onze anos depois [de sua morte], a Justiça deu a sentença do espólio do cantor. Em testamento, o sambista deixou um apartamento e todos os seus direitos autorais para o Retiro dos Artistas, no Rio".  

- Gesto que não vemos ser praticado pela grande maioria das pessoas com práticas homossexuais no Brasil (ao contrário dos nacionais de países como os EUA), mesmo entre aquelas portadoras de maior escolaridade, informação cultural, consciência política.

Na opinião de Madame Satã, Osvaldo Nunes não era bem o que ele chamaria de um malandro bom de briga. Segundo nosso venerando malando, aquilo ele fazia não era briga, mas escândalo. 

É que havia muita rivalidade entre os blocos Cacique de Ramos e Bafo de Onça. Rivalidade que não raro chegava às vias de fato:


Desfile do bloco Bafo da Onça, em 2011:
Horário: Terça, dia 20/2, às 20h
Concentração: Av. Rio Branco com Presidente Vargas Um dos mais tradicionais blocos de embalo do Rio, o Bafo da Onça, grande rival do Cacique de Ramos. O bloco sai cantando suas famosas músicas no último dia de carnaval pela Av. Rio Branco.

Referências:
Rádio Roquete Pinto FM
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/ver/oswaldo-nunes
http://muzamusica.blogspot.com/2009/06/saudosas-bolachas-181971.html
http://www.mail-archive.com/tribuna@samba-choro.com.br/msg03970.html
http://www.lacumbuca.com/2008/06/oswaldo-nunes.html
http://www.bastaclicar.com.br/musica/biografia.asp?id_artista=439
http://memoriadampb.multiply.com/photos/album/205
http://loronix.blogspot.com/2006/10/oswaldo-nunes-pops-ta-tudo-ai-1969.html
http://www.youtube.com/watch?v=na6ymIUBJ5o&feature=related
http://letras.terra.com.br/osvaldo-nunes/

9 comentários:

Carlos Henrique Gomes Siqueira disse...

Vi sempre Osvaldo Nunes na cinelândia à noite procurando rapazes para levar até ao seu apartamento para fazer sexo, todos q o conheciam já esperavam pelo seu fim trágico, q até certo ponto foi até bem demorado pois corria riscos demais ao levar desconhecidos até lá durante décadas. Lamento pelo artista.

Rita Colaço disse...

Olá, Carlos Henrique Gomes Siqueira. Agradecida pelo seu comentário.
Mas não te parece aviltante que o simples fato de se sair à rua em busca de parceirxs para um sexo casual implique em homicídio e, pior, motivado por ódio? De minha parte é altamente violador de nosso direito de ir e vir e à livre determinação individual sermos abatidxs simplesmente porque ou não se consegue conviver com o mesmo tipo de desejo dentro de si ou porque não se percebe uma simples variação na direção do desejo sexual (como já afirmava Freud lá nos idos dos anos da década de 1920) como legítima manifestação da natureza (cujas formas de expressão e realização é conformada pela cultura). Me desculpe, mas a sua escrita parece naturalizar esse tipo de crime - de forma semelhante quando se culpam as vestes da mulher, ou o horário em que estava no espaço público para justificar o estupro...

Carlos Henrique Gomes Siqueira disse...

Não entendo a sua escrita usando "x" em algumas palavras, mas vamos lá.
O seu homicídio não foi motivado por ódio foi um bandido q o matou para roubar, deve ter havido resistência por parte dele, q oferecia dinheiro para satisfazer os seus instintos. Levar qualquer estranho q se conhece numa noite para dentro de casa é motivo de riscos para qualquer pessoa não acha? Ainda mais oferecendo dinheiro por isso. Tenho 53 anos e morei 40 num prédio no centro da cidade e o q eu mais vi em toda a região eram os homossexuais masculinos entre 18 e 70 anos levando para o interior de seus apartamentos dezenas de rapazes, a maioria bandidos, michês, entre outros, a qualquer hora do dia ou da noite, mtos foram assassinados por causa dessa prática.

Rita Colaço disse...

Não sei o que você se refere quando escreve "a maioria bandidos", mas vamos lá...
Talvez você se recorde que os homicídios de homossexuais tem por um de seus traços distintivos os requintes de crueldade. Via de regra há profusão de golpes, tiros, laceração dos corpos... Nunca ou quase nunca, quando há roubo, trata-se de um simples latrocínio. Estudos mostram que frequentemente o que há por trás desses crimes, mais do que o mero desejo de lucro, há um profundo ódio do desejo homossexual.
Outro aspecto que você deixa de considerar é o fato de ser precisamente a clandestinidade do desejo (tido por abjeto na maioria do tempo histórico da cultura ocidental judaico-cristã) que levou esses homens a exercerem o seu desejo dessa forma - as sombras, na obscuridade. Nos dias atuais, com as conquistas importantes nas áreas dos direitos civil e previdenciário, as novas gerações já não tem mais exercido o seu desejo erótico nesses moldes, como as gerações constituídas sob o tacão da imoralidade, da anormalidade, da perversão.

ivan hermes disse...

OSVALDO NUNES FOI UMA DESSAS FENÔMENOS RAROS, QUE VEIO AO MUNDO PARA FICAR IMORTALIZADO COM SUAS ALEGRIAS E MUSICAS.

Waine disse...

"lutando por um país melhor kkkk" olha a maravilha de país q nós estamos vivendo...reinado pelos mesmos terroristas q nessa época se dizia que queria um país melhor, quando na verdade queriam a ditadura comunista.

VIEIRA JUNIOR disse...

Apenas para constar que Osvaldo Nunes era um grande artista, e sua morte se deu por latrocínio. Quanto a época dos militares, os mesmos não tinham nenhuma objeção com relação a homossexualidade de Osvaldo Nunes .

Rita Colaço disse...

Vieira Júnior, agradecida pelo seu comentário.
Apenas para lhe esclarecer, a menção ao regime ditatorial, no texto, é bastante clara - contextualiza o período.
Quanto ao "latrocínio" que menciona, parece que você emprega essa tipologia penal para desqualificar o fato - amplamente noticiado - de que o artista foi vitimado por um miche (prostituto que presta seus serviços sexuais a gays), fato que modifica completamente as motivadoras do crime.
O fato de não haver tipologia específica para crimes de lucro com motivações homofobicas não os tornam inexistentes.

VIEIRA JUNIOR disse...

O fato do assassino ser no michê, ou seja : Vende seu corpo por dinheiro , não desqualifica o crime como latrocínio . Com relação ao Regime Militar , e dentro do contexto da época, vivíamos mais liberdade, mais expressões artísticas de hoje em dia , que são tempos mais ditatoriais do que nunca . Questão de opinião, é claro !