segunda-feira, 19 de novembro de 2012

As instituições do Estado brasileiro são cúmplices no sistemático extermínio de travestis, gays e lésbicas

Dando seguimento às rememorações da história dos tempos da eclosão da Pandemia da Aids e os extermínios de travestis e homossexuais que se intensificaram a partir de então.



À semelhança de Berbert em Salvador, outro a promover o ódio contra os homossexuais era, naqueles anos, Afanásio Jazadji, em São Paulo. Repórter e radialista, desde os anos 1970 se especializara em questões de polícia. Em 1980, passou a ocupar um programa radiofônico em que focalizava a criminalidade, o que lhe garantiu audiência massiva – segundo o próprio radialista, o IBOPE teria contabilizado, em 1983, “mais de um milhão e quarenta e um mil ouvintes por minuto”. Jazadji valeu-se desse espaço para afirmar, por exemplo, que uma xícara de cafezinho em bares utilizada “por eles” transmitiria AIDS à população. Com base nessa e em outras afirmações desprovidas de fundamento científico, propunha o isolamento de homossexuais e lésbicas (sic), a quem chamava de “esses canalhas”, e clamava “para que algum homem com H maiúsculo” tomasse “providências” contra tanta perversão (TREVISAN, 2000, p. 442-443).
            Essas imprecações caíram no gosto popular: Jazadji foi eleito com a maior votação dada a um deputado estadual, sendo reeleito quatro vezes seguidas. Sua página pessoal traz a insígnia: “defende os direitos das pessoas de bem” (JAZADJI, 2008). Demonstrando comungar desse habitus, na mesma Bahia o evangélico Álvaro Martins, cuja campanha eleitoral se baseara essencialmente na perseguição aos homossexuais, com frases tais como: “Os homossexuais são os principais transmissores da AIDS. Vamos acabar com a oficialização da pederastia (sic) na Bahia”, foi eleito vereador pelo PTB (MOTT, 2011, p. 187 [BOLETIM, fev 1989]).

            Luiz Mott registra a frase do jornalista Ivan Leal, que em 1986, no ápice da pandemia social da AIDS, declarou: “Gostaria de ver todos os homossexuais condenados à morte num forno crematório e mesmo assim, lamentava que sobrassem as cinzas” (Jornal do Domingo, São Paulo, 14/12/1986).
            Em meio a esse clima de pânico, culpa, castigo e irracionalidade, setores da população se manifestaram, exibindo a incorporação e o compartilhamento das formas de visão sobre a homossexualidade e travestilidade veiculadas pelos órgãos de comunicação: pichações, xingamentos, pedradas, machadadas, espancamentos, imagens condenando o sexo anal sob a forma de adesivos estampados nos vidros traseiros de automóveis, grupos de extermínio dizimando sistematicamente “bichas” e travestis em áreas de prostituição e em comunidades pobres. Essas eram as práticas mais frequentes verificadas no período (TREVISAN, 2000, p. 442-458; ARRUDA, 2001; MACHADO, 1982, p. 13-19, 123-134; MORANDO, 2008; MOTT, 2003).
            Às margens da Rodovia Presidente Dutra, na altura de Nova Iguaçu (RJ), terrenos baldios utilizados como campos de futebol passaram a ostentar nas manhãs de segunda-feira vários corpos de travestis que exerciam a prostituição nas imediações, muitos dos quais pendurados nas balizas do gol[1]. As compilações de notícias de assassinatos de homossexuais e travestis, realizadas pelo antropólogo Luiz Mott e pelo GGB desde 1981, sempre reconhecidamente subcontabilizadas, apuraram 503 assassinatos entre os anos de 1980 e 1989 e 1.256, entre 1990 e 1999, o que parece guardar relação com o período mais severo da III Epidemia (MOTT, 2005, p. 4).
            Por outro lado, as forças policiais retomaram com mais rigor as tradicionais “caçadas” nas áreas de prostituição de mulheres e travestis. Anteriormente retratadas como ações em prol da moralidade, agora passavam a ser apresentadas como ações de serviço à saúde pública (DANIEL e PARKER, 1991, p. 22). Em curto espaço de tempo, as liberdades conquistadas com a revolução sexual se tornaram objeto preferencial de discursos culpabilizantes e propagadores de ódio, forjados sobretudo por altas figuras das religiões cristãs – católicas e evangélicas – e mesmo personagens da cena política, consagradas como defensoras dos direitos humanos; entre outras, “Hélio Bicudo, D. Aloísio Lorschaider, Rabino Henry Sobel [...] várias vezes divulgaram na mídia opiniões discriminatórias contra os homossexuais, opondo-se radicalmente ao reconhecimento legal da união civil entre pessoas do mesmo sexo” (MOTT, 2002, p. 9).


[1] Informação verbal transmitida por um antigo morador do local.

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